A. A época
1. Idade Média (período histórico que vai do século V ao século XV).
1.1 Período de grande religiosidade, tudo se subordinava à ideia de que Deus era “a medida de todas as coisas”: teocentrismo.
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2. Assiste-se à substituição do latim (língua oficial do Império Romano) pelas diferentes línguas nacionais, de origem latina: português, castelhano, catalão, francês, provençal, italiano, romeno.
3. Vive-se em constante estado de guerra.
4. A sociedade está dividida em classes: a nobreza (os senhores ocupavam-se da guerra, da administração das suas terras e com jogos); o clero (membros da Igreja com todo o poder, saber e riqueza); o povo (os servos cultivavam as terras e não tinham quaisquer direitos).
5. A literatura tem os seguintes traços: lirismo trovadoresco (amor puro, espiritual); teatro de base religiosa (representação de cenas da Bíblia, da vida de Cristo e dos Apóstolos); narrativas de vida de santos, de fábulas moralizadoras ou de cavalaria); alegorias.
A obra máxima de toda a Idade Média é A Divina Comédia de Dante: representação simbólica da vida após a morte.
B. Vida e obra de Gil Vicente
1. Data e local de nascimento incertos (1465? Guimarães?);
2. Data de morte incerta (entre 1536 e 1540?);
3. Profissão incerta (Alfaiate? Ourives?);
4. Casado duas vezes e pai de muitos filhos;
5. 1502: representação da primeira peça, Monólogo do Vaqueiro, pelo próprio Gil Vicente, para comemorar o nascimento do futuro rei D. João III;
6. 1517 (?): representação da peça Auto da Barca do Inferno;
7. 1536: representação da última peça Floresta de Enganos;
8. Entre estas datas escreveu cerca de meia centena de peças;
9. Teve problemas com a Inquisição que proibiu algumas das suas peças;
10. Classificação das suas peças:
- Autos, de inspiração ou motivação religiosa (autos pastoris e moralidades);
- Autos, de inspiração ou motivação profanas (farsas e comédias).
11. Considerado o criador do teatro português uma vez que antes dele apenas se faziam representações religiosas.
12. Gil Vicente retratou, com refinada comicidade, a sociedade portuguesa do século XVI, demonstrando uma grande capacidade de observação ao traçar o perfil das personagens. Crítico severo dos costumes, (de acordo com a máxima "Ridendo castigat mores" – a rir corrigem-se os costumes), Gil Vicente é também um dos mais importantes autores satíricos da língua portuguesa.
C. Compreender a peça
1. Temática
Peça de inspiração religiosa é, sobretudo, uma peça de crítica social. Auto de moralidade, pretende transmitir lições sobre o bem e o mal, as virtudes e os vícios. O seu conteúdo é de natureza alegórica. O assunto é a viagem das almas após a morte e o julgamento que as condena ao Inferno, como castigo, ou as envia para o Paraíso, como prémio.
2. Cenário
É muito rudimentar. Há um rio e duas barcas: a do Diabo toda enfeitada porque é festa e a do Anjo muito sóbria e austera. Não há uma história, as personagens desfilam uma a uma. Vão à barca do Diabo, depois à do Anjo e regressam à do Diabo onde embarcam: é o percurso cénico da maioria das personagens.
3. Personagens
Duas são alegóricas, o Anjo e o Diabo, as outras são humanas. Trazem adereços (símbolos cénicos) que as identificam. São tipos pois representam os defeitos da classe social a que pertencem, não se representam a si mesmas.
4. Processos de cómico
Cómico de situação;
Cómico de caráter;
Cómico de linguagem.
5. Linguagem
Português medieval, com muitos arcaísmos; vários níveis de língua, de acordo com a classe social da personagem; vários recursos linguísticos: eufemismos; jogos de palavras/trocadilhos; ironia; repetições
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